A nova pesquisa CartaCapital/Vox Populi confirma um quadro que já podia ser antecipado há varias semanas e que outras pesquisas também mostraram: a recuperação da vantagem de Lula sobre Alckmin e o crescimento de Heloísa Helena. Lida em comparação com as anteriores e no seu conjunto, porém, ela tem muito mais a nos dizer.
Terminado o primeiro mês oficial de campanha, Lula volta a ter uma vantagem sobre Alckmin de mais de 20 pontos porcentuais, ele com 45% e seu adversário com 24%, chegando a senadora a 11%. Como os demais candidatos recebem apenas 2% das intenções de voto e Lula, sozinho, tem 8 pontos a mais que a soma de todos, voltamos a um quadro de vitória em primeiro turno. Mas será mesmo isso que a pesquisa mostra?
Se olharmos a nova pesquisa junto com as que realizamos em maio, junho e julho, vemos um padrão que começa a ficar nítido: entre Lula e Alckmin, o retorno quase que ao ponto inicial da série: a distância era de 26 pontos e agora é de 21. Heloísa Helena sobe sempre (quase dobrando suas intenções de voto), mas pouco, em termos absolutos. Alckmin tinha 23% e nesta pesquisa marca 24%, ou seja, não muda. Lula vai de 49% para 45%.
Fixemo-nos no que ocorreu com Alckmin. Ele caiu, sem dúvida, mas comparado com quando? Somente se com os últimos dias de junho e o começo de julho, pois, se a comparação for feita com sua posição no fim de maio, ele não teria caído, mas se mantido estável. Nesse horizonte de tempo, aliás, não foi Alckmin quem caiu, mas o presidente, ele sim, talvez perdendo votos aparentemente para Heloísa Helena. Quanto ao ex-governador, o que temos de buscar são os motivos que o levaram a crescer e a cair em seguida, algo diferente de explicar apenas sua “queda” , como se fosse um fato singular e isolado, desvinculado de sua “subida” anterior.
Na verdade, parece-me que os dois movimentos são fruto exatamente da mesma coisa, sobre a qual já tratamos neste espaço: a “força das inserções”, das oportunidades de propaganda partidária. O primeiro momento, a subida, do efeito de sua presença; o segundo, a queda, do impacto de sua ausência.
Alckmin subiu e caiu, nesta hipótese, porque teve um impulso na sua candidatura, representado pela mídia partidária do mês de junho, bem utilizada por sua campanha, e depois porque esse impulso se desfez, quando essa veiculação foi perdendo seus efeitos e se diluindo com a passagem do tempo. É como se ele tivesse tomado apenas uma dose de um fortificante: produziu seus efeitos, mas, como não houve nova dose, eles cessaram.
Assim, o saldo destes dois últimos meses de campanha, para Alckmin, pode não ser tão ruim. Sua candidatura mostrou que “reage bem” a uma adequada quantidade de comunicação, caindo apenas quando a deixou de ter, coisa que pode ser considerada inteiramente natural para quem continua a ser quase desconhecido para metade do eleitorado do país.
A ser isso verdade, o que estaríamos vendo, nestas pesquisas do início de agosto, é apenas uma fase de um movimento do tipo “sanfona”: embaixo sem mídia, em cima com mídia, embaixo sem mídia e, provavelmente, em cima de novo, com nova mídia. Ou seja, quando Alckmin voltar a ter mídia, é razoável supor que ele volte a reduzir a diferença. Até quanto, não se pode saber, mas, se for no nível do que ocorreu entre o fim de junho e o início de julho, será bastante para que, agora com uma Heloísa Helena em patamar mais alto, voltemos a ter um provável cenário de segundo turno.
Mas que mídia? Será na cobertura jornalística que a eleição e os candidatos vêm recebendo de todas as emissoras de televisão e rádio e que tenderá a ser maior daqui para a frente?
Este mês de julho serve de resposta parcial à pergunta e muito nos ensina sobre o que faz e o que não faz diferença no processo eleitoral. Basta olhar para o que ocorreu entre o começo e o fim do mês nas candidaturas “pequenas”: nada.
Cristovam Buarque, candidato respeitável, de um partido respeitável, tinha 1% e continuou com 1%. Os quase desconhecidos permanecem desconhecidos. E todos tiveram doses maciças de exposição, somando sua presença diária no jornalismo, de manhã, de tarde e de noite. Mesmo nos três maiores, há muito pouco (se é que há) que pode ser creditado a essa mídia, com a possível exceção de Heloísa Helena, cuja candidatura parece ser a única que foi influenciada por essa cobertura, o que revela seu alcance e seu limite.
Será, então, que essa mídia que faz diferença é o nosso familiar “horário eleitoral gratuito”, no qual são depositadas tantas esperanças por candidatos e marqueteiros? Não me parece, por razões mostradas nesta pesquisa.
Sua melhor parte é a que procura identificar padrões de audiência ao horário eleitoral, dando números às proporções de eleitores que se encaixam em cada um. Para identificá-los, partimos de um pressuposto simples: como qualquer programa de televisão, o “programa eleitoral” tem seu público, gente que o vê e gente que não o vê, como as novelas, os programas de entretenimento, os telejornais.
As respostas à pergunta sobre como viram, na eleição passada, esses programas guardam alta coerência com o comportamento que medimos diretamente durante a mesma eleição, em pesquisas diárias por nós realizadas, que perguntavam como as pessoas os estavam assistindo.
Temos, portanto, seja na lembrança de seus hábitos, seja no quase “flagrante” de audiência diária durante a eleição de 2002, três tipos principais de espectadores: os assíduos (que assistem a dois ou mais programas por semana), os eventuais (uma vez ou menos) e os não espectadores (que raramente ou nunca vêem). Isto é: apenas um quinto do eleitorado é, de fato, espectador desses programas, pois, mesmo entre “eventuais”, a audiência tende a ser tão rarefeita que seu impacto parece mínimo (basta pensar que, se a audiência efetiva pode ser menor que uma vez por semana, em média, no final de seis semanas, a pessoa poderá ter visto 5, 4 ou até menos programas, o que é muito pouco). E metade ou quase metade do eleitorado simplesmente não os vê.
A pesquisa também aponta a principal razão desses hábitos. Assíduos “gostam” deles, não espectadores “não gostam” ou simplesmente os “detestam”. Como em outros tipos de programas de tevê, há gente que gosta e gente que não gosta. Quem gosta vê; quem não gosta desliga, sai da frente da televisão ou se desliga.
Mas o mais interessante está nas características desses que formam a verdadeira audiência dos programas, os “assíduos”: são mais interessados e mais informados que os demais, donde mais posicionados e mais decididos. Entre eles, 80% já têm candidato na pergunta de voto espontâneo, ou, em outras palavras, estão “fora do mercado”.
Assim, os programas do “horário eleitoral” são pouco ou quase nada no processo de formação de opiniões e tomada de decisões da grande maioria do eleitorado. Os poucos que os vêem já sabem o que vão fazer. Os demais mal sabem o que acontece neles.
E o que realmente conta? Qual o único meio de falar com esses quase 80% que muito de vez em quando ou nunca assistem ao “horário eleitoral”? Qual é a verdadeira “mídia de massa” em nosso processo político?
As inserções, como temos insistido. Dispersas na programação, atingindo a todos, quem gosta e quem não gosta de política, quem tem e quem não tem candidato definido, só elas são decisivas.
Retrospectivamente, a pesquisa mostra que quase 60% dos entrevistados se lembram de haver visto alguma em 2002, o que é muito, pois até eleitores “pouco” ou “nada” interessados (que são 50% do total) estão entre eles (54% dos “pouco” e 41% dos “nada” dizem lembrar-se). Perguntados se eram capazes de se lembrar de alguma inserção de candidato a presidente na eleição passada, 22% do total de entrevistados disse que sim, em proporção muito parecida à de pessoas “muito interessadas” em política.
Daí, para saber como poderão ser as coisas depois do dia 15 de agosto, o relevante é saber quantas inserções cada candidato terá e como serão usadas. Quantas já sabemos: Alckmin terá cerca de cinco ao dia, por emissora; Lula, três; Cristóvão, uma; Heloísa Helena, uma a cada dois dias; os demais, como a senadora.
Vê-se que muito pouco desse instrumento crucial estará à disposição de Heloísa Helena: uma inserção por emissora, a cada dois dias, em média, a ser alocada em diferentes blocos de programação (manhã, tarde, horário nobre), quer dizer que, ao final desses 45 dias, ela terá tido talvez 5 ou 6 inserções “nobres”. Seus adversários terão tanto mais tempo que ela vai quase “sumir”.
Pensando no presidente Lula e em Alckmin, a diferença entre eles fará com que, ao final da primeira semana, o primeiro tenha tido 20 e poucas inserções e o segundo, perto de 35. No fim da primeira quinzena, Alckmin terá acumulado uma vantagem nessa mídia de até 30 inserções por emissora.
Será ela suficiente para fazer com que ele volte a reduzir a diferença que tem hoje para o presidente? O que será que vai ocorrer com a senadora, tão mal aquinhoada nessa mídia? Como será ela usada pelos candidatos, em mensagens persuasivas, convincentes e compreensíveis ou não?