[Por Claudia Santiago] No dia 23 de julho de 1993 fiz um roteiro turístico para apresentar o Rio de Janeiro a um amigo paulista que acabava de se instalar na cidade. Quando o dia já chegava ao fim, por volta das 22h, mostrei a ele a Igreja da Candelária e seguimos tranqüilos para terminar o passeio nos bares de Vila Isabel. Poucas horas depois, horrorizada, tomei conhecimento do que tinha acontecido enquanto eu dormia feliz.
Crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades da Igreja da Candelária foram vítimas de uma chacina, a Chacina da Candelária. Oito crianças foram fuziladas e outras ficaram feridas.
Dez anos depois, em 2003, fui fazer uma reportagem na favela do Borel, na Tijuca, pertinho de uma das maravilhas do mundo, a Floresta da Tijuca. É que havia acontecido uma outra chacina. Quatro moradores foram assassinados pela Polícia Militar sem sequer poder se identificar. Entre os entrevistados estava a moradora Sônia. Conversando descobri que ela era irmã de Wagner dos Santos, um dos sobreviventes da Chacina da Candelária.
Que destino cruel tem esse povo!
Hoje, as imediações da Candelária continuam cheias de meninos e meninas iguais aqueles. E a sociedade ao invés de se preocupar verdadeiramente com a vida deles, sente medo e deseja vê-los atrás das grades.
Por tudo isso, neste dia 23, haverá uma missa na Candelária pelas crianças e jovens mortos.
Em seguida, um ato contra a redução da idade penal.
Levantamento divulgado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal, realizado em 2004, revela que apenas 0,2% da população entre 12 e 18 anos havia cometido algum tipo de crime. Destes, 73,8% eram crimes contra o patrimônio, e não contra a vida.