Casa de espetáculos funcionava irregularmente em espaço público há 15 anos

Por Silvana Sá


O assunto da mídia carioca é: “fecharam o Canecão”. Entra em cena o prefeito Eduardo Paes lamentando o fato. A imprensa noticia com grande pesar o acontecido. Mas ninguém questiona o fato de a casa existir num espaço público! Espaço que custou o dinheiro de cada cidadão. Ninguém questiona os preços exorbitantes dos ingressos da casa de espetáculos. A única coisa que dizem é: “perdemos um ponto de cultura da cidade”.

E fica uma pergunta: que cultura? Ou melhor: cultura pra quem? Uma cultura mercantilizada, que é acessível a quem tem dinheiro. Essa é a cultura que interessa para o desenvolvimento de uma sociedade?

Só “venha a nós”
A administração do Canecão utilizava o terreno irregularmente desde 1995. Desde 1997 há uma briga judicial movida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dona do espaço, pela reintegração de posse.

Mesmo com o lucro obtido em cada show realizado, nada era repassado à universidade. Isso nos lembra grileiros que se apossam de terras públicas – como fez a empresa Cutrale que roubou terras da União para plantar seus pés de laranja derrubados (com toda a razão) pelo MST. Nesse caso, a mídia e governantes se comportaram da mesma maneira: viram a ação, mas não viram a grilagem. Questionaram o movimento, mas não a questão social que está por trás disso.

É definitivo
A decisão judicial que resultou no fechamento da casa não permite mais recursos. Já era hora! Afinal, são 13 anos de luta na justiça. A cada decisão favorável à UFRJ, a administração do Canecão recorria da sentença.

O prefeito da UFRJ, professor Hélio de Mattos, afirmou à imprensa que utilizará o espaço para montar um centro cultural. Sendo, de fato, da universidade e sem o comprometimento com o mercado “cultural”, as chances do espaço ser, realmente, um lugar de cultura e saber são bem maiores.