Por Adriana Facina
Largas dentaduras,
vosso riso largo
me consolará
não sei quantas fomes
ferozes, secretas
no fundo de mim.
Não sei quantas fomes
jamais compensadas.
Dentaduras alvas,
antes amarelas
e por que não cromadas
e por que não de âmbar?
de âmbar! de âmbar!
feéricas dentaduras,
admiráveis presas,
mastigando lestas
e indiferentes
a carne da vida!
(Carlos Drummond de Andrade)
Essa era minha intenção. Boa para dia das crianças. Boa para tempos em que se discute sobre fascismo no cinema nacional. Boa para pensar por que crianças de classe média brincam de tropa de elite, desenvolvendo indiferença (para não dizer ódio) em relação aos moradores das favelas que as circundam. Excelente tema também para refletir sobre a questão da propaganda política, seja a mais explícita, seja a mais velada, travestida de jornalismo e entretenimento, e seu papel numa sociedade na qual o atraso da desigualdade social abissal convive com a “modernidade” midiática capaz de estetizar a fome e a miséria como problemas resultantes da “natureza humana”, ahistórica e, portanto, imutável.
Pensei em Goebbels, ministro da Propaganda de Hilter, cuja frase atribuída mais conhecida é “uma mentira repetida várias vezes pode se tornar uma verdade para os incautos”. Se pensarmos bem, Goebbels descobriu não somente a alma da propaganda política, mas a alma da propaganda em geral. Goebbels poderia ser editor da revista Veja. O mundo de Veja é o dos transgênicos que não fazem mal à saúde, da economia que vai bem (o desemprego é culpa dos desempregados, pois trabalho há!), das madeiras do reflorestamento politicamente correto dos desertos verdes criados pelos eucaliptos e o dos pobres que estragam tudo quando resolvem se organizar para reivindicar seus direitos (vide “madraçais do MST” e outras pérolas semelhantes comparando movimentos sociais a terrorismo e fanatismo religioso).
Pensando em tudo isso, artigo quase terminado, fui ao mercado e me deparo com o bombardeio de Época, Veja, e Revista da Semana (versão mais “popular” da Veja) com louvações da Tropa da elite (o que só confirma análises desenvolvidas em diversos artigos críticos ao filme) e defesas das posições assumidas por Luciano Huck frente ao assalto por ele sofrido.
Até aí nada demais além do que se poderia esperar. O que mais me chamou a atenção foi algo que me fez reviver Hitler, Goebbels e todos os seus comparsas. Trata-se de um anti-intelectualism
Se nos tempos de Guerra Fria éramos acusados de comer criancinhas, hoje somos maconheiros, drogados, coniventes com a violência ou então atrasados e fora de moda (olha a cafonice aí de novo! ai meu deus…). Nenhuma palavra contra a indústria bélica que fornece as armas que vão parar nas mãos do tráfico. Afinal, quais as ligações de grandes anunciantes dessas revistas, como Bunge, Cargill, Monsanto com setores que se beneficiam com tráficos de drogas lícitas e ilícitas no mundo? E a indústria farmacêutica que, legalmente, fornece os psicoativos que nos tornam um país recordista mundial no consumo de medicamentos tarja preta? Melhor encontrar culpados mais palpáveis (como os judeus na Alemanha nazista) entre aqueles cuja vida não vale quase nada e entre os que, em sociedades midiáticas e não democráticas, são alvos prováveis para a exploração de ressentimentos sociais resultantes de uma ignorância cuidadosamente cultivada pelo grande capital.
Bom, não foi desta vez então que eu pude explicar para minha filha por que Hitler foi um idiota. Se bem que, pensando bem, não sei não. Acho que, em parte, já respondi à pergunta da pequena…
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Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).
publicado originalmente em www.fazendomedia.