Texto: Euro Filho.

Após uma pausa durante o fim de semana, o 26° curso do Núcleo Piratininga de Comunicação chega ao seu terceiro dia, com bastante intensidade de debates, e uma boa variedade temática. Nas mesas, antigos amigos e parceiros do NPC deram a sua contribuição, além de novos companheiros que chegam para somar e abrilhantar as discussões do curso.

As atividades do Curso Anual de 2020 estão acontecendo online.

Iniciando o trabalho no período da manhã, tivemos a apresentação de Mário Camargo, cantando a canção “Cidadão”. Em seguida, o debate sobre “Comunicação e Eleições 2020” trouxe as lições que a esquerda precisa extrair dos pleitos que aconteceram no âmbito municipal. O time escalado para compor a mesa foi de peso: Renata Souza, Deputada Estadual (e cria do NPC), os jornalistas, Altamiro Borges, Beto Almeida e Laurindo Leal, a mediação foi de Najla Passos.

Altamiro Borges ficou responsável por abrir as falas, reconhecendo que ainda é muito recente para se fazer análises, no entanto ele pontua: “Bolsonaro foi derrotado, mas o bolsonarismo não. Essas ideias racistas e reacionárias seguem vivas na sociedade”. O jornalista também colocou a necessidade de a esquerda agir além dos pleitos eleitorais, “nós não podemos viver de eleição, e esse é um grande erro. O ano de 2021 vai ser de
acirramento da luta de classes. A comunicação tem que estar ligada nisso”.

Encantado com o tema do curso, Lalo Leal fez uma menção à necessidade de criticar a apropriação dos bens naturais. E sobre o período eleitoral, destacou a forma como a TV e o rádio saíram valorizados, “a televisão voltou a ser um importante canal de informação política no Brasil. Tanto no horário eleitoral, como em alguns debates de certas cidades, a TV foi decisiva”.
Apesar disso, Leal faz um alerta, “não pode mais os debates ficarem nas mãos de empresas privadas de comunicação. Elas não podem definir se vai ter ou não debate. Isso é uma questão pública de estado”.

Em sua rodada, Beto Almeida afirma que os políticos de esquerda ainda são reféns da tirania midiática, “com exceção do Brizola, ninguém enfrenta”. O jornalista fez duras críticas a postura da esquerda na corrida eleitoral frente à mídia, mas principalmente as oportunidades perdidas que governos de esquerda tiveram, no âmbito federal e municipal, em relação a uma política de comunicação, “houve alienação, desprezo e conservadorismo acerca da criação de canais de cidadania na TV. Os partidos de esquerda têm uma postura alienada e conservadora de política de comunicação”.

Trazendo o lado de quem concorreu, Renata Souza, que disputou a Prefeitura do Rio, criticou a despolitização que é feita pela mídia hegemônica, que sequer fizeram o dever de casa nestas últimas eleições, como a realização dos debates. A Deputada Estadual também apontou as perdas de oportunidade em relação a políticas de comunicação, “a gente teve em um governo de esquerda, e precisamos lembrar disso, um grande número de rádios comunitárias sendo fechadas”.

Sobre o grande número de rádios comunitárias que também foram criadas no mesmo período, Renata rebate, “mas foram parar nas mãos de quem? Das igrejas neopentecostais que hoje pregam o negacionismo”, afirma.
Jornalismo Sindical, Comunicação e Lutas Populares Logo ao término da mesa sobre eleições, teve início um debate sobre jornalismo sindical. Os comunicadores José Bergamini, Sâmia Teixeira e Nina Valente trouxeram
reflexões a partir de suas práticas nos sindicatos que atuam. A mediação foi da coordenadora do NPC, Claudia Santiago.

Bergamini e Nina Valente apontaram o papel importante que as direções sindicais possuem para a eficácia da comunicação sindical, “sem as diretorias sindicais terem uma inserção no dia a dia dos trabalhadores, a ação do jornalismo sindical fica muito difícil”, comenta José. “O sindicato precisa preencher mais a vida do trabalhador, por isso perdeu espaço para as igrejas”, afirma Nina.

Sâmia trouxe a importância de valorizar de valorizar a comunicação sindical, “é muito importante que em um momento de crise de saúde e economia a gente fortaleça a comunicação sindical”.

Sem tempo para respirar, a mesa composta por Gabriel Gallindo, coordenador de redes da campanha de Boulos e Erundina, Cristiane Passos, coordenadora de comunicação do CPT, e Michele Silva, coordenadora do jornal Fala Roça, debateram sobre comunicação e lutas populares, com mediação de Euro Filho.

Gallindo aborda que o desafio de comunicação da campanha para a Prefeitura de São Paulo era fazer Boulos conhecido e qualificar esse conhecimento, “a campanha nasceu com o objetivo de fazer as pessoas conhecerem e se apaixonarem por ele. Mais do que fazer as pessoas dizerem que o Guilherme era o melhor candidato, o mais preparado; era
fazer elas gostassem dele”.

Sobre os desafios de comunicar para a Pastoral da Terra, Cristiane falou sobre estratégias que parecem ter se tornado obsoletas, mas para o público alvo que direciona o seu trabalho funcionam, “nós fazemos até hoje calendário de parede, porque isso é muito usado no campesinato para acompanhar as fases da lua, por causa da colheita. Eu não vejo a necessidade de um formato absoluto. Vejo que a gente precisa adaptar a
linguagem. Nós usamos mídia digital, mas sabendo dos obstáculos de acesso à internet no campo. Temos que pensar nisso”.

Michele Silva fala sobre a aproximação e impacto que o jornal Fala Roça tem para os moradores da Rocinha, “a gente entrega o jornal, e conversa, e aí naquele papo vão surgindo pautas. A cabeça das pessoas é muito diferente da nossa. Estamos colhendo os frutos dessa aproximação. Esse ano foi o melhor em distribuição e acesso do jornal. A gente tem recebido muitos pedidos, muitas interações. Para mim é o indicador de que
estamos no caminho certo”.

Guerras híbridas

O dia terminou com um debate complexo sobre a questão “guerras híbridas”, os palestrantes Mateus Mendes, Ana Chã e Wesley Lima ficaram com a responsabilidade de destrinchar o tema, sob a mediação de Katia Marko.

Ana chama atenção que as estratégias de comunicação do grande capital não ocorrem por acaso, mas buscam se perpetuar no longo prazo com bastante planejamento, a fim de mudar a percepção das pessoas sobre algo no decorrer do tempo, “há 10 anos dificilmente alguém saberia dizer o que é o agronegócio”, afirma.

Em sua fala, Mateus destrincha os diferentes processos que compõem as guerras híbridas, e sobre a voracidade do atual projeto político de ataque aos trabalhadores comenta, “o grau de violência que a gente vê no projeto atual está sendo gestado há 40 anos, não é de agora”.

Ele também fala qual a alternativa para frear todo o processo de mentiras e guerra cultural que tem acontecido, “o nome do projeto e da ideologia que a gente precisa contra o que está aí é socialismo! Não tem outra”.

Falando sobre como a comunicação pode ser um caminho contra hegemônico, Wesley Lima fala, “a comunicação precisa ser uma expressão da luta dos movimentos populares”. A partir de uma abordagem freireana, Wesley conclui, “a comunicação ganha materialidade quando o sujeito se vê como parte da construção desta comunicação”.