A Veja desta semana tomou uma decisão corajosa. Deixou de fingir que faz jornalismo isento. A maior revista de circulação nacional transformou sua capa em um verdadeiro panfleto de propaganda contra o desarmamento. Os argumentos utilizados nada têm de jornalístico. Tão pouco de original. Menos ainda de congruentes.
Alberto Hirschman, em um criterioso estudo sobre o pensamento conservador da Revolução Francesa até nossos dias, afirma que toda investida é seguida por contra-investidas ideológicas extraordinárias.
No livro “A retórica da intransigência”, publicado no Brasil em 1992, ele mostra que os principais meios de criticar, atacar e ridicularizar as iniciativas progressistas reduzem-se, de fato, a três grupos de argumentos principais: as teses da Perversidade, da Futilidade e da Ameaça.
A Tese da Perversidade versa que “qualquer ação proposital para melhorar um aspecto da ordem econômica, social ou política só serve para exacerbar a situação que se deseja remediar”. É fácil observá-la na capa da Veja, por exemplo: “A proibição vai desarmar a população e fortalecer o arsenal dos bandidos”.
Já a Tese da Futilidade defende que “as tentativas de transformação social são, necessariamente, infrutíferas; não conseguem deixar marcas na história”. É precisamente o que a Veja alega na sua razão de nº 2, quando diz que a vitória do “sim” no referendo não vai tirar as armas de circulação no Brasil.
A Tese da Ameaça, por sua vez, argumenta que “o custo da reforma ou mudança é alto demais, pois coloca em perigo outras preciosas realizações anteriores”. Está explícita na razão nº 3: “o desarmamento da população é um dos pilares históricos do totalitarismo”. Para Veja, por incrível que pareça, apoiar o desarmamento é, ao mesmo tempo, fortalecer os bandidos, não chegar a lugar algum e, também, investir contra a democracia. As demais razões apresentadas pela revista podem ser analisadas conforme os mesmos critérios.
Mas o que importa, de fato, é o que Hirschman nos ajuda a esclarecer com seu estudo. Mesmo repetitivas e incongruentes, as três teses conservadoras conseguem tocar a fundo o emocional da maioria da população. E, por isso, costumam encontrar bastante ressonância. É preciso ter isso em mente antes de tomar uma posição. Sempre. Seja qual for o tema em debate.
Por Najla Passos